sexta-feira, 26 de junho de 2009

Testículo

Meu primo?
A primeira parte da peça infantil tinha sido ótima. Para as crianças. Mas a alegria do ambiente era contagiante.
Depois de quase uma hora de espetáculo, as luzes se acenderam para o intervalo. Todos apressados para ir ao banheiro e beber alguma coisa. Não houve surpresa ao ver as filas descomunais dos sanitários, tanto o de “meninas”, quanto o de “meninos”. Fiquei na fila, no meio da criançada. Não tinha jeito, eu estava muito apertado: pelas crianças eufóricas e pela vontade de fazer o número um.
Um pouco à minha frente, observei uma mãe angustiada com a espera. Todos os pais não pareciam satisfeitos com a demora, mas ela chamava atenção. Agitada, olhava para o filho e para a fila, como se fosse capaz de achar uma solução mágica para o problema.
- César, meu filho, você não quer fazer ali no cantinho?
- Não!
- Rapidinho ali no canto...
- Não!
Aflita com a espera, a mãe começou a incitar o menino a ir para a frente para tentar um lugar melhor. A criança, que devia ter uns dez anos, esbanjava cidadania e dizia:
- Não, mãe. Vou ficar na fila.
Mesmo com a demonstração de boa edução, a mãe não se inquietava. De repente, ela saiu de seu lugar e foi até o início da fila. Conversou com um senhor e voltou correndo, chamando o filho:
- Venha, César! Seu primo está lá na frente!- Meu primo? Que primo?
Eles se afastaram e foram para o começo da fila. Pena...uma mãe desedu-cando uma criança de dez anos que quis esperar pela sua vez. Antes dos meninos entrarem no banheiro, ainda consegui ouvir, bem baixinho, o inocente diálogo:
- Oi.
- Oi.
- Você é meu primo? Ué, nunca te vi na casa da vovó...
Paulo Dodô

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