quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Você quer seguir O Desenfado?


Este blog é uma versão eletrônica do jornal impresso O Desenfado e é atualizado quinzenalmente, após distribuição gratuita no Rio de Janeiro.

Você já leu um livro hoje?

O Desenfado não foi chamado para a Bienal do Livro.

Temos consciência de que nossa literatura não merece tanto e que somos apenas um jornal latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes. Portanto, não faremos nenhum boicote e leremos uns dois ou três livros por dia. Se você sabe ler, faça isso também!


Você poder ler nossas edições anteriores neste blog ou pedir as versões eletrônicas pelo e-mail odesenfado@gmail.com.

Boa leitura! (boa?)
Equipe O Desenfado

Esporte desportivo (clique para ampliar)




Lançamentos da Bienal do Livro

Clique para ampliar

É Vídeo Show?

Mesmo com um passado de debates editados para favorecer certos presidenciáveis e um histórico de proteção à burguesia, hoje o Jornal Nacional tem sua autonomia e imparcialidade, conquistadas por uma equipe competente. Tem mesmo?

Mas algo aconteceu. Temos visto uma exagerada cobertura dos 40 anos de criação e longas entrevistas com os repórteres mais antigos, que duram dez minutos e superam as realizadas com ministros e outras autoridades.
O que houve? Pânico com a audiência da Record? Pavor com a multiplicação de telejornais em outras emissoras? A Equipe Desenfado não foi convidada (com razão) para o lançamento do William, não o do vôlei, e sim o jornalista, que escreveu um livro sobre o Jornal Nacional. Fica a dúvida se a publicação classifica as entrevistas com os experientes repórteres como notícias de relevância nacional que mereçam tanto destaque. É fantástico ou Video Show?

Testículo

O Devoradô de Letras
Vartan Melikian
Tudo começou quando disseram que ele precisava alimentar mais a sua alma. Poderia, por exemplo, devorar alguns clássicos da literatura. Talvez, por falta de leitura mesmo, entendeu o recado no sentido tão literal da coisa que logo já estava comendo as suas primeiras letrinhas. Definitivamente, queria se tornar um homem letrado. Nem o próprio nome (Maurício Sardinha) conseguia pronunciar sem engolir um errezinho ou arrotar uma cedilhazinha:
- Prazê, Mauriço Sadinha.
- Meu filho, pare com isso. Pode prejudicar a sua saúde. Por que não come alguma coisa normal como todo mundo?
- Pai, nem só de pão vive o home, mas também da palavra. Por falánisso, mãe, sobrou um poquinho da sopa de letrinhas?
O pai ia à loucura. A mãe tentava acalmá-lo.
- Esses jovens de hoje só comem bobagem mesmo. Isso passa.
Mas não passou. E a história que foi se desenrolando daria um livro, neste caso, um conto. Mauriço começou a levar o novo hábito de alimentação a sério. Ingeriu uma quantidade tão grande de letras, que estava com dificuldades de expelir algumas. Como o W, por exemplo. O H, por motivos óbvios, também lhe causava prisão de ventre.
Era preciso desgastar todo aquele dicionário no estômago. Foi malhar na Academia Brasileira de Letras. Vivia tomando aquele chazinho cheio de circunflexos anabolizantes e tremas proibidas, sonhando em se tornar imortal.
A má influência da turma da academia fez Mauriço exagerar. Passou adorar qualquer discussão apenas para engolir seco as palavras do outro. Só mesmo a namorada para fazê-lo soltar uma palavra doce.
- Bombom, vamos jantar fora? Tem um rodízio ótimo no Flamengo chamado Estação das Letras.
- Maurício, tá louco! Isso é uma livraria!!!
Depois de muito custou aceitou a sugestão sensata e foram para um restaurante japonês. Foi um vexame. Mauriço comeu o menu.
- Ideograma é muita tentação!
Tiveram que parar de sair. Em casa, Mauriço passou a viver com uma palavra cruzada na mão. O que para ele equivalia a um livro de receitas. Cada vez mais faminto, ele chegou a comer o pingente de letra M do próprio cordão. O que novamente causou prisão de ventre piorava. Afinal, o M dentro do organismo agia da mesma forma que o W.
Foi obrigado a se tratar. E escutou duas coisas do médico: primeiro, a bronca por ter engolido toda a receita. Depois, as recomendações. Dieta rigorosa. Nada de romances, nem teses científicas. No máximo, um conto. A situação era crônica. Outra coisa: nada de papas na língua. O havia dentro dele, tinha que ser posto para fora com todas as letras.
Naquele mesmo dia, ao chegar atrasado ao trabalho, por justamente ter ido à consulta, ouviu uma série de palavras indigestas do chefe. E Mauriço começou o tratamento. Soltou o verbo, o sujeito, o predicado e até um ou outro adjunto adverbial de lugar impróprio, que eu só posso traduzir como “naquele lugar”. No fim, ainda disparou um Y que foi rodopiando e passou raspando a cabeça do chefe.
Mauriço, é claro, está desempregado. Para saber melhor como aplicar o dinheiro do Fundo de Garantia, ele passa o dia fazendo contas. Pelo jeito diferente que ele olha os números, parece que será difícil resistir.
Difícil mesmo vai ser você engolir esse texto goela abaixo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009


Dez! Nota 10!

Pessoas que, provavelmente, se arrependeram do que fizeram...

Testículo

Hipocondríacos

Vartan Melikian
www.cronicaeaguda.blogspot.com

Um dos mais complicados sintomas da gripe suína é o aparecimento em massa dos hipocondríacos, esses profetas com especialidade em doença. E o que torna difícil combatê-los é o pressuposto equivocado de que eles têm medo de ficar doente. Os hipocondríacos torcem pela doença. Como qualquer outro profeta, eles querem que suas previsões, por mais nefastas que sejam, se concretizem. Só pelo simples prazer de pronunciar a frase redentora: “Eu avisei”.

Graças (?) a um tio, diagnostiquei a farsa hipocondríaca cedo. Devia ter uns 10, 12 anos. Havia acabado de jogar futebol e fui pegar água. Um fato corriqueiro? Não para o hipocondríaco. Eles atacam quando a gente menos espera.

- Não abra a geladeira suado desse jeito, menino! Pode pegar um resfriado, que vira uma gripe, que se transforma numa pneumonia e depois, ai meu Deus, numa tuberculose.

Perdi a sede. Mas fiz gargarejo com a água gelada só para provocar. A partir desse dia, meu tio vibra até hoje quando dou um espirrozinho.

É o tipo de gente que se mostra amiga para, em seguida, te humilhar. Já experimentou dizer que está com dor de cabeça perto de um deles?

- Tenho analgésicos aqui. Alguns. Alguns não! Muitos.
- Você me arruma um dorflex?
- Tem certeza? Isso comigo não faz nem cosquinha... Mas já que você prefere...Tá aqui ó.

E assim você fica se sentindo um frouxo, achando que aquela sua dor de cabeça é só frescura, porque o sujeito, coitado, sofre de crises e crises de enxaqueca. E que a sua dor...ah, a sua dor deveria ser mais forte ainda. Até você se dar conta da armadilha. Se o dorflex não serve pra ele, por que então carrega um na bolsa? Isso mesmo. Apenas para te rebaixar!

Temos que identificar os hipocondríacos! Eles parecem ter um olhar superior (dizem que é o efeito benéfico do glaucoma e por isso são os únicos capazes de enxergar os inimigos que nos ameaçam, como micróbios e vírus). Tive uma namorada que todas as vezes que nos beijávamos, ela lembrava que havíamos trocados 250 bactérias. Não preciso dizer que a noite de sexo foi um fracasso. Bem... Foi mais saudável assim.

Para ficarmos vacinados contra eles, deixo a minha contribuição: um perfil de um dos maiores hipocondríacos do Brasil. Por e-mail (ele achou melhor nessa época de gripe suína evitar o contato), ele revelou algumas de suas preferências que nos ajudam entender como pensam.

Nome: Thomas Chagas
Profissão: médico ama-dor
O que lê no momento: A bula do Tamiflu.
Música: O pulso, dos titãs. Uma obra-prima.
Melhor filme: Nenhuma produção ainda superou Psicose.
Signo: Câncer
Pior filme: Cantando na Chuva. Chega a dar arrepios.
Animal de estimação: Condor
Local preferido para fazer amor: Uma maca
Cor preferida: Amarelo (pálido)
O que costuma falar depois do sexo: Foi ótimo! Chegou a me dar taquicardia.
Time de futebol: Agora sou porco! Palmeirense doente!
Vício: Álcool (em gel). Estou consumindo sem moderação.
Uma frase: “É melhor prevenir. Mas remediar também tem as suas vantagens”
Pode ser impressão minha, mas depois que recebi o e-mail dele com as respostas, não é que meu computador ficou meio esquisito. Será que entrou vírus?

Outro testículo

No tribunal
Paulo Dodô


Em uma audiência no tribunal, o réu é acusado por falsificação de documentos.

- Então o senhor produz carteiras de estudante falsificadas?
- É, não tenho como negar.
- Excelência!
- Ah, obrigado. Mas não precisa disso. Sou uma pessoa simples.
- Não! Você tem que me chamar de Excelência!
- Ah, sim, Excelência.
- Você tem ciência de que cometeu um crime?
- Sim.
- Que está ganhando com algo que é ilegal?
- Excelência, na verdade eu não ganho nada. Eu faço pros amigos, que não me pagam nada.
- Não te pagam? Onde você faz as carteiras?
- Não. Eu faço em casa mesmo.
- Mesmo assim é crime! A lei de falsificação de documentos, da complementar, do Código Penal, nas instâncias do Supremo, nos autos do processo, com posse e flagrante delito...
- Cacete...essa mulher vai engasgar...
- Como é?
- Pode prosseguir...Excelência.
- Como eu proferia: o parágrafo 3º, do inciso 7º, do artigo 8º, do ensejo 4º...
- Agora parece uma ascensorista...
- O que o senhor cochicha?
- A minha ignorância em leis, Excelência.
- Pois é...mas fique calado enquanto eu falo.
- Tudo bem.
- Diante de toda a legislação citada, data venia que o réu é primário e não obteve benefícios financeiros, sentencio-o ao pagamento de 20 cestas básicas. O senhor está ciente da pena?
- É uma pena, mas estou.
- Como?
- Estou, Excelência!
- A sessão está encerrada.


Na saída da sala de audiência...

- Ei? Rapaz?
- Sim, Excelência?
- Não. Não precisa me chamar assim. Você faz essas carteiras em casa?
- Sim. Quer dizer, fazia!
- Você faz rápido?
- Fazia. É pegadinha isso?
- É que minha filha acabou a faculdade e tem um show caro pra ir...dá pra fazer uma pra ela?
- Não dá. É crime.
- Se você não fizer, aumento a sua sentença!
- Aí é ameaça. Crime também. Sabia que posso te processar?